domingo, 2 de setembro de 2012

A DANÇA DOS VAMPIROS


        A DANÇA DOS VAMPIROS
 
 
 
 

 



THE FEARLESS VAMPIRE KILLERS / A DANÇA DOS VAMPIROS

Produção: EUA / Inglaterra / 1967

Direção: Romana Polanski

Elenco: Roman Polanski, Jack MacGowran, Sharon Tate

Duração: 108 min.

Sinopse: Abronsius (Jack MacGowran) é um professor universitário especialista em vampiros que decide ir até a Transilvânia, no coração da Europa Central, acompanhado de seu fiel discípulo Alfred (Roman Polanski), que infelizmente é bem medroso. Abronsius tem como objetivo aprender sobre vampiros e combatê-los, se possível, mas os fatos tomam um rumo inesperado.

Por volta do final dos 70 e início dos 80 fui apresentado a um filme que mudou minha concepção a respeito dos filmes de terror, talvez pela primeira vez em minha vida me deparei em uma obra artística com aquilo que chamamos de paródia. O filme A dança dos Vampiros era muito elogiado pela crítica, mas eu imaginava se tratar de um filme com muitos sustos. Mas logo percebi que estava diante de algo diferente e, o que poderia ser um insulto para um garoto fanático pelo gênero terror, acabou representando para mim uma grande e agradável surpresa.

            Só depois li e conheci melhor o trabalho de Polanski, mas ainda hoje acho estranho que um realizador soturno como ele, um sujeito que criou O bebê de Rosemary e Repulsa ao sexo, tenha concebido uma comédia, e o pior, que talvez tenha aberto mão de um grande talento como comediante para ficar apenas atrás das câmeras, afinal, como ignorar e deixar de rir com a careta irresistível protagonizada por Polanski na cena em que pelo buraco da fechadura, o atabalhoado Alfred vê estarrecido ao invés da estonteante Sharon Tate, o olhar raivoso e cheio de sangue escorrendo do conde Drácula em pessoa?

            Tudo funciona neste filme: atores, direção, trilha sonora, direção de arte. Na abertura, uma gota de sangue escorre pelo letreiro do elenco e produção, e a trilha sonora segue em uma mesma batida transmitindo a falsa sensação que em breve estaremos diante de uma sucessão de cenas aterrorizantes, mas assim que finda a apresentação somos agraciados com uma cena em primeiro plano da imensidão de montes de neve que contrastam com o vermelho, fruto de desejo dos vampiros. Logo somos apresentados aos personagens: o Dr. Ambrosius, especialista em vampiros, mas que é ridicularizado pelo meio acadêmico em que atuava, e seu fiel escudeiro, o auxiliar Alfred (interpretado por Polanski). Ao vermos o Dr. congelado e ridiculamente levado para ser aquecido em uma taverna, percebemos com mais clareza que não estamos diante de um filme de horror clássico e tradicional, mas sim diante de uma enorme e divertida gozação ao gênero. Dr. Ambrosius é um personagem quixotesco com sua crença em vampiros e Alfred seria a encarnação de Sancho Pança, mas com seu medo excessivo e sua paixão pela “garota do conde” acaba também por perder seu senso de razão nos levando a acompanhar com um sorriso permanente no rosto suas enormes trapalhadas ao longo de todo o filme. Os personagens coadjuvantes como a taverneiro e sua esposa também são grotescos, feios e bizarros. O ridículo está sempre presente, como característica daquilo que deve se enquadrar o filme: a paródia.

            Acredito que Polanski tenha idealizado seu filme como uma grande história em quadrinhos, tive a sensação em vários momentos de estar diante de personagens de um desenho e não de um filme,- os cenários, a natureza inóspita, o castelo e a taverna facilitam esta visão. Em outra leitura, observo uma homenagem aos filmes do cinema mudo, às comédias clássicas como as de Chaplin, por exemplo, com o predomínio da pantomima. Tal como aquelas produções, os diálogos são o que menos importa em A dança dos Vampiros. Há uma cena em particular que lembra Tempos Modernos, onde o personagem do Dr. Ambrosius fica entalado em uma janela que dava entrada à cripta onde estão os vampiros, tal como o personagem de Chaplin que vê seu encarregado também entalado nas engrenagens de uma maquina, Alfred demora séculos até tirar o Dr. daquela incômoda e perigosa situação.

            Assisti a Dança dos Vampiros em vários momentos de minha vida: na infância, na adolescência, na juventude e na minha maturidade, é claro que em cada uma destas exibições observei algo diferente. Na infância, o humor que se volta ao cinema mudo predominava. Na adolescência, a temática voltada à sexualidade passa a ser o eixo. Como ignorar, no início dos anos 80 o vampiro homossexual em uma época ainda conservadora e muito distante das atuais Paradas Gays? E neste aspecto é muito interessante observar o contexto em que o filme foi produzido: 1967. Contracultura predominando: luta pelos direitos civis nos EUA, Power Flower, protestos contra a guerra do Vietnã e às vésperas do maio de 68 com o movimento estudantil querendo inverter toda a ordem e forma de poder e, é claro o Woodstook de 69. Ou seja, em uma época em que todas as instituições estavam sendo ridicularizadas. Polanski com seu talento não poderia produzir um filme clássico e conservador a respeito de vampiros. Assim, nosso vampiro gay está muito longe de ser um nobre da Transilvânia ou outra esquecida região do Leste Europeu, estamos isto sim, muito provavelmente diante de um jovem de San Francisco exercitando as várias facetas de sua sexualidade e consumindo drogas.

            O filme não é apenas famoso por Polanski, na verdade mais famoso que ele é a presença de sua ex-mulher, a maravilhosa Sharon Tate, que teve sua beleza relegada a segundo plano devido sua morte estranha, violenta e trágica. Sua presença neste filme representou uma guinada em minhas concepções a cerca daquilo que eu procurava em um filme de horror. O tema do vampirismo sempre teve uma alta dosagem de sensualidade e erotismo, mas para um garoto, as mulheres seminuas que apareciam nos filmes da Hammer eram meras coadjuvantes, estávamos muito mais interessados no Conde Drácula e sua mordida. Mas, quando adolescente vi Sharon Tate pedindo permissão a Polanski para tomar banho em seu banheiro, com seus seios subindo e descendo de hesitação, percebi pela primeira vez que mulheres ruivas, seios e bocas, passavam a representar muito mais que o olhar hipnótico de um homem que se travestia de vampiro. Depois disso, os filmes de terror nunca mais foram os mesmos.

            Em A dança dos Vampiros, a vida deve ser vista como uma grande paródia onde a realidade não deve ser levada tão a sério para que, se não pudermos ser felizes como gostaríamos, possamos então, ser menos infelizes. Bela diversão!

Um comentário:

  1. Este é um dos meus filmes favoritos. Inesquecível! Parabéns pela resenha! Grande abraço!

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