domingo, 2 de setembro de 2012

AMADEUS


AMADEUS




AMADEUS / AMADEUS

Produção: EUA / 1984

Direção: Milos Forman

Elenco: Tom Hulce / F. Murray Abraham

Duração: 160 min.


Sinopse: Após tentar se suicidar, Salieri (F. Murray Abraham) confessa a um padre que foi o responsável pela morte de Mozart (Tom Hulce) e relata como conheceu, conviveu e passou a odiar Mozart, que era um jovem irreverente, mas compunha como se sua música tivesse sido abençoada por Deus.·.

            Se há um filme que representou minha entrada no mundo da maturidade poderia dizer que este filme se chama Amadeus. Quando o vi pela primeira vez no cinema, estava com dezesseis anos e, como tantos jovens, desconhecia por completo aquilo que chamamos de natureza humana.

            Este filme não me tornou um amante de música clássica. O que interessa aqui não é compreender a música de Mozart, conhecer sua história, que, diga-se de passagem, é bastante nebulosa e deu margem a várias interpretações, inclusive a peça que originou este filme escrita por Peter Shaffer. O que interessa é o maravilhoso estudo entre o profano e o sagrado e, acima de tudo, entre os sentimentos mais mesquinhos que sustentam no homem seus instintos mais vis e primitivos, enfim, tudo aquilo que nos faz menores. Tudo isto está presente em um personagem que representa o oposto das virtudes, mas que as incorpora sob a máscara da dissimulação: Antonio Salieri.

Quando saí do cinema, percebi que em minha vida iria conhecer muitos Salieris, mas, o que é o mais grave, nem todos se apresentariam para mim, ou seja, eu teria que “descobri-los” e esta talvez seja uma das grandes tragédias de nossa tão propalada “vida social”: a de desconhecermos nossos “reais inimigos”, como ocorreu com Mozart. Ou, o que é ainda mais grave, a de pensarmos que não teremos “inimigos” ao longo de nossas vidas.

 Por trás de tudo, surge onipotente a mais detestável e perseguida fraqueza humana: a inveja. Salieri é consumido e destruído por ela e quanto mais ele se aproxima de seus objetivos, mais nos compadecemos de seus atos. Ao vencer, com a morte de Mozart, ele na verdade é derrotado e de algoz se transforma em vítima. Uma vítima de suas convicções e verdades, prisioneiro de si mesmo.

            Salieri foi um compositor da corte austríaca que obteve sucesso em sua época, mas que no filme é ofuscado pela genialidade de Mozart, um jovem que desde criança viajou pela Europa com o pai apresentando suas próprias composições. Ao contrário do filme, estudos históricos apontam que nunca houve tal rivalidade entre ambos e que Shaffer abusou da liberdade artística para criar em Salieri a personificação da maldade a partir da frágil moral humana.

            Nosso atormentado protagonista (que não é Mozart) luta contra o opressor pai pelo direito de ser músico, com a morte deste atinge seu objetivo e faz um “acordo” com Deus: irá criar as mais belas composições para louvá-Lo em troca de ser admirado e respeitado como um grande compositor. Mas eis que chega um músico que personifica para o moralista Salieri a ausência de Deus, segundo ele uma “criatura obscena”, mas que “parecia a própria voz de Deus”. É justamente diante deste dilema moral que temos o choque entre o que é profano e sagrado a partir das convicções do antes querido compositor oficial da Corte. Este dilema nos remete ao romance O Nome da Rosa, de Umberto Eco, em que para os mais conservadores membros do clero era inaceitável a premissa que Cristo sorria. Da mesma forma, para Salieri era inaceitável o fato que Deus havia escolhido para representá-Lo um homem cheio de luxúria, mundano em sua essência. Neste momento, utiliza para si mesmo o pretexto religioso para esconder sua própria mediocridade, ou seja, sua infinita inferioridade diante do genial talento de Mozart.

            Uma cena em particular é impactante: quando Salieri joga a imagem do Cristo crucificado para ser queimada na lareira.

            “De agora em diante somos inimigos, Você e eu. Porque Você escolheu para o Seu instrumento um garoto arrogante, desregrado, obsceno e infantil, e deu a mim como recompensa a capacidade de reconhecer Sua Encarnação. Porque o Senhor é injusto, arbitrário, cruel. Vou negá-Lo eu juro. Vou amaldiçoar e machucar Sua criação na Terra tanto quanto eu possa. Vou arruinar Sua Encarnação.”

            Interessante observar o sentimento exacerbado de orgulho em sua fala que tenta a todo o momento justificar sua inferioridade artística e, porque não dizer, humana.

            No filme, Mozart ri de maneira estridente e zombeteira para desespero de nosso quase puritano protagonista:

            “Era Deus rindo de mim através daquelas gargalhadas obscenas.”

            O personagem ficcional de Salieri também se aproxima de Fausto, de Goethe e O retrato de Dorian Grey, de Oscar Wilde. Impossível ignorar em tais personagens a fragilidade que se esconde por trás da “onipotência” de seus pensamentos e ações.

            Novamente Deus é responsabilizado pelos seus sofrimentos:

            “Ele me presenteou com o desejo e depois me emudeceu. Por quê? Se Ele não queria que eu O louvasse, por que implantar o desejo como um vício em meu corpo? E depois proibir-me o talento?”

            Convenhamos... A argumentação de Salieri é bastante consistente dentro de sua lógica e podemos até considerar que esta lógica é muito adequada em nossa natureza humana, natureza esta que faz germinar nos corações e mentes de quase todos o sentimento da inveja a partir de nossa exposição diante do fracasso. Projetamos no sucesso alheio aquilo que imaginamos que nos falta.

            Salieri era um vencedor, conseguiu superar as adversidades e estabelecer seu nome nas esferas do poder. Amadeus era um jovem impulsivo que perdia todas as oportunidades para crescer naquele meio tão ardiloso.  O sentimento de inveja em Salieri o corrompe de tal forma que ele não consegue perceber que não seria necessário fazer nada de mal para ver a ruína daquele que ele imaginava ser seu concorrente e inimigo.  Não percebe que Amadeus vai perdendo contato com o poder que ele tão bem conhecia, ele não consegue enxergar que um público “menor” passa a acompanhar as obras do gênio, que este se volta para as vaudeville, que suas operas, como Dom Giovanni, são pouco aplaudidas, a única coisa que ele é capaz de perceber é que, tal como uma maldição, ele foi escolhido por Deus para apreciar e venerar o escolhido Dele e, com isso, sentir-se cada vez mais medíocre, como nas cenas em que descobre que Mozart escrevia as partituras de suas composições sem erros, como se alguém as ditasse, que as tinha na mente, tal como um Deus em seu processo de criação, sem falhas, sem erros, sem correções. No filme, somos levados a crer que, em vida, o único que venerou totalmente a genialidade de Mozart foi seu arquiinimigo Antonio Salieri.

            A produção do filme é maravilhosa, utilizou-se luz natural nas várias cenas, o figurino e a direção de arte são estupendos. A música não nos cansa e é utilizada em momentos marcantes dos personagens. Não se trata de um filme para apreciadores de música clássica, mas sim que utiliza a música como “pano de fundo” para ilustrar os sentimentos e motivações dos personagens. Mozart é um personagem frágil, que não consegue se desvencilhar da forte presença paterna que o amedronta desde a infância até a morte. Salieri é como um anjo caído, aquele que renega o próprio Deus, que acredita que foi abandonado por Ele, mas que ao relatar sua história ao padre que o visita no manicômio demonstra estar em pleno estado de suas faculdades mentais ao constatar que “Ele (Deus) matou Mozart e me manteve vivo para me torturar.” Não é o padre que o absolve, mas sim o próprio Salieri que se absolve de seus atos ao assumir sua mediocridade: “Medíocres de todos os cantos. Eu os absolvo. Eu os absolvo a todos”, grita em sua cadeira de rodas aos loucos do manicômio, que em suas alienações não têm a menor idéia do que aquele outro “louco” está dizendo. Até o padre é absolvido. Salieri reconhece que só ele seria capaz de libertar os humanos de suas falhas, pois se Amadeus foi a Encarnação da vontade Divina, ele foi a encarnação da vontade humana com suas limitações, imperfeições e, é claro, a mediocridade.

            O olhar zombeteiro de Salieri envelhecido, contando sua história ao padre continua marcante.

Quantos Amadeus são destruídos cotidianamente em uma sociedade que faz da competição e é claro, da própria inveja valores inerentes à conquista do espaço social?

            Salieri é um personagem assustador. É o fantasma que tentamos esconder em nosso closet, mas que insiste em sair e se mostrar para todos. Afinal de contas, é com esta mediocridade que nos imaginamos tão importantes.


           



3 comentários:

  1. puxa....eu e vc tínhamos quase a mesma idade, qdo assistimos este maravilhoso filme. eu ja gostava de música clássica, por influência de meu pai, mas depois de Amadeus, o mundo transformou-se para mim.

    um abço

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