domingo, 2 de setembro de 2012

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA


A FELICIDADE NÃO SE COMPRA
 

 

IT’S A WONDERFUL LIFE / A FELICIDADE NÃO SE COMPRA

Produção: EUA / 1946

Direção: Frank Capra

Elenco: James Stewart / Donna Reed

Duração: 129 min.

 

Sinopse: Em Bedford Falls, no Natal, George Bailey (James Stewart), que sempre ajudou a todos, pensa em se suicidar saltando de uma ponte, em razão das maquinações de Henry Potter (Lionel Barrymore), o homem mais rico da região. Mas tantas pessoas oram por ele que Clarence (Henry Travers), um anjo que espera há 220 anos para ganhar asas, é mandado à Terra, para tentar fazer George mudar de idéia, demonstrando sua importância através de flashbacks.

 

 

Quando Frank Capra morreu, em 1991, os jornais estampavam na primeira página a morte do célebre diretor com mais de 90 anos de idade. Comecei a assistir aos seus filmes durante a minha adolescência. Todos muito marcantes: Aconteceu Naquela Noite, O Galante Mr. Deeds, Do Mundo Nada Se Leva, A Mulher Faz o Homem, Adorável Vagabundo. O sujeito era brilhante, conseguiu como poucos captar a essência do pensamento conservador americano, só que o dosou com tamanha sensibilidade que o sentimento patriótico dos americanos, algo enfadonho e ideologicamente perigoso, nas mãos de Capra passou a ser um sentimento universal, isto porque antes de ser norte-americano, o sujeito tinha que ser bom, integro e solidário acima de tudo.

Seus filmes nos mostram valores que são caros e porque não dizer raros em sociedades competitivas e consumistas em seu cerne.

Interessante observar que ele veio criança para os EUA, de Palermo, sul da Itália, ou seja, de uma origem cultural bastante diversa do mundo anglo-saxão. Iniciou sua carreira durante os anos de Depressão, viveu o pior lado do capitalismo e talvez tenha conseguido com seus filmes dar um caráter humanista a um sistema baseado na desigualdade. Sentindo o que a competitividade sem limites e escrúpulos gerava à sociedade civil, seus filmes nos levam a um mundo que caminha muito próximo das obras literárias de John Steinbeck, autor de As vinhas da ira e Ratos e Homens, só que bem menos amargo. Com certeza o público gostaria no cinema de se identificar com os seus problemas sociais, mas queria acima de tudo fantasia e “vilões” arrependidos. O homem comum é o herói capraniano, e atores como James Stewart e Gary Cooper encarnaram como nenhum outro este homem comum.        Uma pena que as novas gerações desconheçam esta fase do cinema norte-americano, onde os grandes estúdios lucravam como nunca, mas se submetiam ao talento dos grandes diretores que eram verdadeiros artesãos na arte de contar uma história.

            Em um mundo de reality shows onde o que importa é esmagar o outro com um sorriso e abraço falso de lealdade, vale a pena rever estes filmes. Capra já identificava nos políticos, empresários e na imprensa (mídia) as causas de todos os males sociais. Seus personagens formam uma rede, onde empresários inescrupulosos se unem a políticos corruptos e juntos monopolizam os meios de comunicação de massa na defesa de seus interesses. Atual? Com certeza muito, mas dizer que a mídia “manipula” e que existem empresários que utilizam meios ilícitos para enriquecer, não é muito adequado em nossa sociedade que transmite ideias de consenso, assim podemos dizer que atualmente os chamados políticos ficaram sozinhos como “vilões”. Mas em Capra, eles estão todos juntos, agindo em uníssono.

            Este filme talvez seja o mais intimista e introspectivo de Capra. Ele foi lançado em 1946, no pós-guerra e curiosamente não fez muito sucesso, somente anos depois com a TV ele foi se consolidando como um clássico, aquele filme que é exibido para os americanos em todo dia de ação de Graças, talvez o feriado mais importante para eles, juntamente com o 4 de julho. É interessante observarmos que em filmes bem mais recentes, este filme aparece como sendo assistido por algum personagem, ou seja, a cena de “um filme dentro do outro”.

            A história é um “conto de fadas moderno”: um sujeito família, o famoso “boa praça”, se mete em confusão no mundo dos negócios e começa a ver toda sua vida desmoronando, torna-se um falido e não vê mais propósitos em viver, então decide cometer suicídio. Neste momento chega uma mensagem aos céus e um aspirante a anjo da guarda, _ que precisa de uma boa ação para ganhar suas asas _ recebe a missão de descer até a Terra para convencer nosso protagonista a não se matar. O genial é a tática utilizada pelo anjo, na verdade representado por um senhor bonachão e aparentemente “desligado” da realidade, mostrar a James Stewart como seria a vida daquele lugar e das pessoas que ele ama sem a presença dele. E neste momento é impossível não se emocionar e, ao mesmo tempo, deixar de se identificar com as dores e sofrimentos de quem está próximo da morte por se sentir incapaz de mudar e dar um sentido à própria vida. George Bailey (James Stewart) entra em um mundo Kafkaniano, de pesadelos, onde sua consciência física (“penso, logo existo”) é invertida, pois ele pensa, mas não existe mais, ou melhor, nunca existiu; assim sua esposa é uma mulher solitária e infeliz, a cidade foi corrompida, pois seus projetos humanitários nunca foram colocados em prática, seu irmão morreu criança, pois não foi salvo por ele, os “malvados” capitalistas transformaram o bucólico local onde ele sempre morou em um grande prostíbulo e assim por diante. Estas cenas são avassaladoras, quando as vi e sempre que as revejo, fico imaginando o ideal renascentista do “Homem no centro do Universo”. Como não deixar de pensar em nossas vidas, em nossos fracassos, sonhos e idealizações, em tudo aquilo que gostaríamos de ser e fomos incapazes de concretizar, e ao mesmo tempo, como não pensarmos em nossa importância? Mas o que mais impressiona é que apenas um individuo, com seus atos isolados e do cotidiano, é capaz de mudar não apenas a sua história, mas sim a história de muitas pessoas. Quantas vezes um olhar, um abraço, uma fala e acima de tudo uma atitude mudaram e selaram para sempre não apenas o nosso destino, mas o destino de outras pessoas? Apenas esta reflexão já é o suficiente para colocar A Felicidade Não Se Compra como um ícone do cinema.

            Também muito belo é o sentimento cristão que permeia todo o filme. Nosso protagonista é um idealista, um sujeito que passa toda a sua vida pensando no próximo: nos pais, nos irmãos, nos amigos, na esposa e nos filhos. De repente nada daquilo valeu e tal como Cristo que se dedicou ao próximo e foi injustiçado, ele aceita dar a própria vida. Mas, ao contrário do Cristo, o anjo vem lhe dizer e mostrar que sua morte nada representaria, mas sim a sua vida. O bacana do filme é justamente este tratamento de choque utilizado pelo anjo, levar o sujeito a se valorizar, levantar sua autoestima e nisto, este filme nos leva ao sublime.

            Nosso protagonista amou ao próximo o filme inteiro, mas deixou de se amar. Quando tal sentimento é resgatado, não é apenas George Bailey que se torna livre, mas sim todos que acompanharam sua trajetória. Capra nos mostrou com extrema sensibilidade e simplicidade que a felicidade está muito próxima de todos nós.

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